quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Escalar

“Aprendi com a primavera; a deixar-me cortar e voltar sempre inteira.” Cecília Meireles

           Frase batida e clichê. Mas nem por isso deixa de ser uma das minhas favoritas. O fato de muitas pessoas a repetirem de forma um tanto cansativa, não faz com que muitas realmente a compreendam ou a apliquem. Para mim, uma das coisas mais bonitas que uma pessoa pode fazer é se entregar de verdade, deixar-se completamente vulnerável. O riscos disso podem ser grandes, mas apenas se você não souber se reconstituir caso precise. Quantas vezes não ouvi que a solução para os meus problemas era deixar de me doar tão inteiramente, tão intensamente? Mas viver assim, pela metade, seja em qual tipo de relacionamento for, para mim, é trair a própria vida. Quando o maior sentido que pude atribuir ao simples fato de existir é apenas o sentir, seja qual sentimento for; deixar de fazê-lo, para mim, é deixar também de existir.

           Acredito ainda no poder da repetição para fazer com que algo se torne verdade. Desde criança gosto dessa frase e a escrevo para mim mesma ocasionalmente. Desde que me entendo por gente repito que sou forte e que aguento qualquer coisa. Hoje sei que essa espécie de “mantra” foi o fio que me segurou nos piores momentos da minha vida. Estou atualmente num desses processos de me reconstruir, e sei que é grande a tentação em aproveitar o momento para construir também muros, mas não o farei. É duro forçar essa perspectiva agora, enquanto ainda estou na metade do procedimento, no entanto sei que poderei futuramente me entregar mais uma vez. E mesmo sabendo que com isso vem também, é claro, a possibilidade de me destruir de novo, sei que vale a pena. Dessa vez em especial percebi algo que não havia notado ainda. Ao analisar todas as vezes em que me joguei assim, em que me doei, percebo uma certa progressão na intensidade e beleza de cada relacionamento e no que retiro de cada um. A cada vez gosto mais do processo de pular naquela oportunidade e a cada vez descubro algo diferente, um sentimento diferente que eu não sabia ser capaz de sentir, que eu sequer sabia que existia. Sim, eu sou uma pessoa forte não apesar de me doar tanto, mas justamente por isso, e jamais deixarei de ser assim.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

O Quadro

Senti o leve roçar das cerdas do pincel me fazendo cócegas. Era uma manhã de sábado incomumente ensolarada e ela me olhava concentrada enquanto eu sentia o calor da luz do sol que entrava pela janela. Ela não costumava estar acordada em uma hora como aquela, mas havia sonhado comigo e precisou urgentemente se levantar e vir me ver. Normalmente ela passava um bom tempo falando na minha frente com o pincel na mão, bradando-o como um maestro, porém dessa vez eu podia ver que havia algo diferente. Ela ainda estava vestida com a camisa do The Smiths com a qual eu a vi saindo na noite anterior e a cada frase ela derramava mais e mais lágrimas. “Tudo termina onde começa” ela dizia entre uma gota e outra. Percebi nesse momento que ela começou a me mudar, antes eu era feliz e suave, com cores alegres, agora ela começara a sujar o pincel com cores mais escuras e a dar pinceladas mais bruscas. Pincel, gota, palavra, pincel, gota, palavra, que ritmo triste ela havia formado. Ah que diferença do dia em que ela me começou. Lembro-me ainda que ela havia vestido uma camisa do Guns, com um propósito especial brilhando no canto dos olhos e no sorriso esperançoso. Naquele dia algo havia começado e ela estava mais feliz do que nunca. Agora ela me terminava, e eu que achava que iria ficar para sempre livre naquele lugar perto da janela, via-me de repente emoldurado, preso e prostrado em cima de sua cama, para que ela jamais esquecesse. Começou com Guns e terminou com The Smiths, como havia de ser.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

I am yours now

            O conceito de afinidade sempre me intrigou, sabe? Lembro-me de passar horas tentando entender o que faziam duas pessoas se sentirem tão próximas e ainda hoje não compreendo. Considerei a semelhança de gostos, mas eu recordo das vezes em que você me revelou algumas preferências suas (antigas ou atuais) que são completamente diferentes das minhas próprias e isso não me afastou de você, pelo contrário. Pensei na afinidade pela semelhança no que gostamos de fazer, mas novamente me vi não ligando para as nossas diferenças nesse ponto. Talvez fosse afinidade de princípios. Tá ai! Pude ver até agora que temos os mesmos princípios. Mas certamente falta algo nessa “explicação”. Ainda que princípios estejam tão arraigados em nossas personalidades, não parece ser uma explicação satisfatória. Não seria apenas isso que criaria esses avestruzes, não é? Por que seriam apenas eles os responsáveis por tantas contrariedades; o conforto natural e o nervosismo do novo que me cobrem por completo quando você está aqui.

            Quão efêmero seria gostar de você apenas por aspectos da sua personalidade que podem mudar eventualmente? Quão simplório é procurar explicação em gostos e hobbies? Prefiro explicar essa coisa toda no instinto. Uma vez na vida meu faro havia de funcionar. Senti no toque a sua essência. Percebi na tranquilidade, na segurança, que me dá quando você me olha. Como mais poderíamos ter conversas tão reveladoras desde o começo? Mesmo não sendo alguém de ter muitos segredos, acho que nunca mostrei tanto sem ao menos perceber. Nunca tive tão pouco medo de soar clichê. Não estou livre de ter medos e vergonhas (o nervosismo do novo), mas pela primeira vez posso expô-los, sabendo que você consegue sumir com eles em pouco tempo (o conforto natural). Aliás, você me faz entender como o tempo pode ser algo tão relativo, sete horas, sete minutos, qual é a diferença? A sua presença. Eu vou continuar aqui deitada, o braço não formiga, a perna não dói, não preciso me mexer para me ajeitar, está tão bom assim.

"See what I've done
That bridge is on fire
Back to where I've been
I'm froze by desire
No need to leave"

domingo, 22 de dezembro de 2013

O pulo

Houve apenas uma outra vez em que senti que estava diante de algo incrível, sem fazer ideia do que seria. Naquele dia, quando parti sem olhar para trás e me vi em um lugar completamente novo, uma imensidão vazia pronta para mim. Aquela imensidão não poderia me olhar de volta e reagir; não poderia sentir nada por mim. Seria apenas eu, sozinha, fazendo dela o que eu quisesse, o que eu pudesse. Alone again, naturally.

                Aquela imensidão pode ter feito muitas coisas por mim, mas não me tirou do meu estado inerte. Retornei e trouxe comigo de volta a mesma garota patética, inacabada e cheia de dúvidas que saiu por ai se auto flagelando, buscando sentir alguma coisa. Estranhamente aquela imensidão que deixei para trás, sentindo ter sido esse abandono o maior erro da minha vida, tornou-se repentinamente insignificante. Em algum momento depois que o conheci, o desconhecido tornou-se parte da minha vida. É um desconhecido tão familiar, que me observa de volta. O desconhecido que me toca e nesse simples gesto muda tudo. Eu já havia escrito sobre esse sentimento, antes mesmo de conhecê-lo. Lembro-me da vez em que descrevi como era sentir a certeza em um risco, sentir o certo ao pular no abismo. Nenhum de nós compreende tudo isso, não é? Você também se surpreendeu, como eu. E ainda que surpresa assim, pela primeira vez não busquei respostas, não senti a angústia de não saber o porque. Pela primeira vez só aproveito o agora e busco o futuro, só busco você nessas noites em que me deito, ainda sentindo seu olhar em mim, e fecho meus olhos com um sorriso bobo no rosto.

quinta-feira, 21 de março de 2013

A importância de um significado


Não sei ao certo a origem do meu nome, já a pesquisei algumas vezes e achei respostas distintas, certamente se eu procurasse mais acharia algo concreto sobre isso, porém até hoje não me dei a esse trabalho. Uma coisa que nunca variou em minhas pesquisas foi o significado do nome: Érica significa sempre poderosa. Antigamente eu me orgulhava muito disso, achava linda a frase “sempre poderosa”, enchia a boca para falar, soava toda pomposa e cheia de mim. Até me envergonho em dizer que uma vez comprei um chaveiro em que vinha escrito todo o significado do meu nome. A ingenuidade da juventude me fez iludida, onde havia uma maldição eu via uma benção. Sempre me julguei forte e indestrutível mesmo quando algo me abalava profundamente, tentava sempre pensar no depois e em como aquilo passaria e não teria mais tanta importância com o tempo.
Esse método até que funcionou por um período, quando eu ainda acreditava que tinha muitos e muitos anos pela frente e mil chances de mudar tudo, mas hoje vejo como é tão óbvio que ele estava fadado a falhar um dia. Quem seria capaz de ser sempre poderosa? Aliás, quem seria feliz assim? Carreguei e ainda carrego essa frase sobre os ombros, e ela pesa, como pesa. Imagine viver pensando que mais do que qualquer outra pessoa você não deve errar nunca, que qualquer erro seu seria infinitamente pior do que o erro de outra pessoa. Imagine ter medo de fazer qualquer coisa, de arriscar, justamente por achar que eu não tenho o direito de me equivocar.
Ao mesmo tempo sempre tive essa voz dentro de mim, que me mandava seguir meus sonhos, pular do barco; seguir a nado sozinha pelo o oceano vasto sem um sinal de qual seria a direção certa. Uma voz que me mandava parar de pensar tanto e fazer as coisas que eu queria. Essa voz representava a criança que eu um dia fui, antes de saber do outro mundo, o que existia fora da minha cabeça, antes de saber dos significados de nomes e das exigências das pessoas. Eu era livre de mente, porém presa e limitada fisicamente pelo simples fato de ser criança. Dessa liberdade ficou a voz, sempre me acariciando e me mandando ser feliz apesar de tudo, esquecer as regras e as críticas e apenas ser. A voz e a frase entram em conflito cada vez mais e já mal consigo distinguir o que é fala de uma e o que é fala de outra, tudo se mistura e me perco de mim mesma, já não sei mais quem eu sou, onde estou, para onde devo ir.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Internet imprevisível, gerações e frustração


Acho engraçado perceber como a internet é, como li em um texto da minha aula de antropologia, bastante imprevisível. Um clique em um link leva a outro assunto que leva a outro completamente diferente que te faz ver algo interessante e assim por diante. Esses dias estava olhando meu Facebook e vi um vídeo com o trailer de um filme muito interessante estrelando a cantora Clarice Falcão. Alguns dias antes já havia visto essa mesma cantora em um canal que sempre assinto no Youtube chamado Rolê Gourmet e tinha simpatizado com a moça, o que me fez ter interesse em clicar para ver o trailer e depois me fez procurar  suas músicas (não conhecia nada dela). Esse vídeo, que coloco a seguir junto com o video do Rolê Gourmet, me fez pensar muito sobre a nossa geração; qual seria um denominador comum entre ela e outras gerações passadas e quais são as características especificas da nossa.


            

Frustração deveria ser a palavra do século. Creio que quando estavam escrevendo a história pararam nos anos noventa e pensaram assim: “Ah, acho que seria interessante se o próximo século, não, o próximo milênio fosse comandado por gerações de jovens frustrados... Sim! Essa leva de gerações começará agora! Brilhante!” Ok, eu sei que estou exagerando. Estou ciente de que a minha geração não é a primeira a se sentir assim; sei que a frustração é na verdade uma grande parte do processo de se tornar adulto. Mas cada geração de frustrados teve sua peculiaridade. Também sei que, por maior que seja nossa capacidade de ter empatia, sempre seremos mais afetados pelos nossos próprios problemas, claro; quisera eu ser daltônica ao olhar para o vizinho.
Do meu ponto de vista, os meus antepassados frustrados e jovens pareciam ter ao menos uma união maior, um espírito de contracultura que os juntava de uma forma mais bela. Mesmo os hippies, sob o meu olhar nada imparcial, pareciam ser uma “bagunça estruturada”, um despropósito com mais objetivo do que vejo hoje. Sei que esse meu pensamento pode ser apenas uma ilusão histórica, uma idealização do passado, mas saber disso não ameniza minha frustração. Estranhamente me sinto tão parte e tão aparte da minha geração.  Essa alienação, palavra de ordem nesse momento em que a facilidade de adquirir informação e a de ignorá-la é proporcionalmente igual, tanto me enoja quanto me seduz. Aprendi desde cedo que quem não tem dinheiro não é gente, quem não vê novela é prepotente, quem não bebe cerveja é chato e quem não compra tecnologia de ponta (e de marca) é reacionário. Simultaneamente aprendi a respeitar as diferenças, a reciclar, a ser feliz, a não ter medo de ser triste, a ir ao terapeuta, a resolver meus problemas sozinha.
Creio que parte dessa frustração da juventude atual vem dos opostos tão mesclados em que fomos criados, ao menos a minha é. Devo ser a certinha e a errada, a perfeita e a delinquente, devo seguir meus sonhos e buscar estabilidade, ser supermãe e me focar no trabalho, me conformar e lutar. Apenas isso, nada a mais, nada a menos. Somos a geração da indecisão, da contradição, somos a geração inexata em que devemos se tudo e nada. O resultado disso? Como diz o nome de um filme brasileiro recente cujo trailer muito me interessou: “Eu não faço idéia do que eu tô fazendo com a minha vida.”
Para finalizar deixo um video com uma música da Clarice Falcão que gostei muito:




Boa tarde,

Criei esse blog em 2008 com o intuito de publicar poesias e contos escritos por mim. No começo estava bem empolgada com isso e publicava com mais frequência, no entanto com o tempo fui percebendo que pouquíssimas pessoas estavam interessadas em ler esses meus tipos de textos em blogs e que teria de divulga-los de outra maneira (o que ainda farei futuramente). No começo desse ano escrevi algumas vezes sobre minha experiência pessoal morando sozinha em São Paulo e talvez eu tenha sido pessoal demais, não sou exatamente uma pessoa muito reservada, mas entendo que nem todo mundo quer saber como eu me sentia por lá. Mais uma vez estava usando o veículo errado.
Agora, porém, achei o uso perfeito para o meu blog. Estou fazendo faculdade de comunicação social e isso tem me incentivado a escrever mais textos argumentativos, crônicas e artigos de opinião expondo o que vejo e penso desse mundo (lar) habitado pelo ser humano que, como já escrevi uma vez: é essa massa disforme que se encontra entre o bem e o mal (agridoce), mas nunca pende somente para um dos lados. Somos antagônicos na medida em que misturamos, mesmo em uma só decisão, duas intenções opostas e compostas de múltiplos fatores complexos e distintos.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Domingos

Não tem jeito, domingos por si só já são depressivos e calmantes naturais, acrescente a isso um friozinho e uma garoa e não há o que me cure desse momento de reflexão e nostalgia. Engraçado pensar em como eu, há alguns anos atrás, imaginava que estaria minha vida hoje; claro, estou em São Paulo como sabia que estaria, mas essa é a única coisa que foi como esperava, e mesmo isso não aconteceu do jeitinho que pensei que aconteceria. Podemos fazer planos atrás de planos que nem sempre tudo sairá como esperado, sempre vai ter ao menos uma coisinha que irá te surpreender e te pegar desprevenido. Não acho que isso queira dizer que não vale a pena fazer planos e sim que é essencial saber pegar atalhos que voltem para seu caminho principal e saber enxergar e aproveitar as oportunidades que se apresentarem de supetão na sua vida. Por ter ao menos essa qualidade fui capaz de vivenciar momentos incríveis e de encontrar pessoas as quais a companhia e o carinho muito prezo. As situações de que mais me lembro são essas inusitadas que nos entregam, não aquilo que desejávamos, mas aquilo cuja existência desconhecíamos e ainda assim se encaixa tão perfeitamente em nossas vidas. Esses momentos é que nos presenteiam com coisas que mostram como mesmo nossos sonhos são limitados, pois nunca sonharíamos em ter algo tão bom.

domingo, 4 de março de 2012



Baseio muito da minha vida no que eu aprendi com os meus pais, seja concordando com eles ou não, seja algo que eles me falaram ou que eu observei sozinha, seja seguindo seus conselhos ou fazendo o oposto, mas fato é: tiro muito ensinamento deles dois. Uma das coisas que eu aprendi é que a gente tem que ser egoísta antes de tudo. Eu sei que isso soa mal, mas claro que tem um limite de egoísmo, não é egoísta no sentido de apenas pensar em si e mais ninguém o tempo todo, mas de sempre que for decidir algo pensar em como você vai ficar nessa. É questão de sobrevivência até, ninguém vence e sobrevive sendo completamente altruísta e nunca colocando a si mesmo na equação.
Meus pais tem um relacionamento ótimo e fazem muito um pelo outro e por mim e pela minha irmã, mas eles nunca deixam de pensar neles mesmos também. Quanto mais novo a gente é, mais forte isso tem que ser. Claro que a vida sempre vai vir com mil pedras na mão e mil obstáculos e claro que sempre vai ser difícil manter um relacionamento tão longo com alguém. Mas quanto mais novo você for, mais difícil vai ser. Não tem hora certa que funcione para todo mundo quando se trata de entrar de cara em um relacionamento sério com alguém. Porém cabe a cada um ver se está pronto para isso, para fazer o que for preciso e nunca vai funcionar se só um dos dois estiver nesse momento. É essencial encontrar um companheiro, um parceiro, no sentido mais completo da palavra; alguém que você sabe que vai estar ao seu lado tanto quando tudo estiver mal como quando tudo estiver bem. E brigar de vez em quando não é um sinal de que a pessoa não é companheira, mas abandoná-la sem motivo algum é.
Eu acredito muito em uma coisa. Tem gente que prega o total desapego. Não se apegar a nada nem a ninguém. Dizem que só assim você encontra o verdadeiro caminho da felicidade. Eu discordo completamente; não tinha como discordar mais. Mas tem um jeito certo de se apegar às coisas. É como aqueles adesivos tecnológicos e revolucionários que a gente usa para pregar as coisas na parede sem fazer buraco. Enquanto ele precisa segurar aquilo que você quer, ele é firme e forte. Mas no momento em que você precisar tirar, ele sai sem maiores estragos à parede. Para mim seres humanos devem ser iguais. Conquiste pessoas e coisas todos os dias. Conquiste um bom emprego, bons amigos, compre as coisas de que você gosta. Mas nunca invista mais tempo nessas outras coisas do que você investe em si mesmo. Por que no fim das contas a gente nasce sozinho, morre sozinho e vive sozinho. Isso não é uma coisa ruim como parece ser, é apenas a realidade. Por mais próximo que você fique de uma pessoa ela não vai se unir a você e estar ao seu lado literalmente o tempo todo, dentro de você. Sempre irão existir momentos em que você vai se encontrar completamente sozinho, por isso é importante garantir que você consegue ter apenas a sua companhia sem enlouquecer. Por isso é importante se conhecer e ser seu próprio amigo.
Perder algo sempre vai ser doloroso. Mesmo se existisse um desses adesivos para parede que pudéssemos colocar na pele, poderíamos retirá-lo sem nos machucar muito, mas ainda assim iria doer na hora de tirar. Doeria, mas não seria fatal. A coisa mais importante nessa vida é saber dar valor a nós mesmos e não há melhor forma de fazer isso do que se fortalecendo. Não me entenda mal, se fortalecer não é ser um muro impenetrável. Fortalecer-se é ser como nosso próprio planeta. Muitas coisas se desenvolvem e penetram nele, mas tenha certeza que por mais que a gente o danifique, um dia a gente será extinto, e o planeta vai continuar aqui e vai se renovar; sem dúvida. Contudo, nem tudo nessa vida se vence apenas com força, é necessário ser também persistente. Aprender, como todos sabem, é um processo doloroso e só aprendemos por que dói, por que marca. E é ai que entra a sutileza de saber quando se está realmente dando desnecessariamente murro em ponta de faca e quando apenas se tem essa sensação por ser algo difícil de se conseguir e que leva muitas tentativas. Só consegue quem se machuca e só se machuca quem tenta. Manter sempre as esperanças e confiar em sua própria capacidade nos proporciona a habilidade de cair quantas vezes for, ser chamado de imbecil por continuar tentando e ainda assim não desistir até conseguir. Afinal se você ainda tenta tem ao menos uma chance, por menor que seja, de vencer, mas quem se declara perdedor abre mão de qualquer chance que tinha. E saiba, mais coisas nessa vida são possíveis do que querem que você acredite que sejam.
Por isso é importante unir força, persistência e perspectiva de forma que o único jeito de parar de viver é literalmente parando de viver, morrendo. Parece idiota dizer isso, mas tem gente que para de viver embora o coração continue batendo. Nunca faça isso consigo mesmo. É importante saber que por mais que você se apegue às pessoas e faça escolhas na sua vida em que as considere, você sempre pensou e investiu em si mesmo também. Tudo acaba um dia, não importa quanto tempo dure, um misero segundo ou anos a fio, mas irá acabar eventualmente. A única coisa que nunca irá te abandonar do começo da sua vida até o último de seus dias é você mesmo, não acha que isso é motivo suficiente para se valorizar acima de tudo?
Não pense que sou hipócrita, acredito firmemente em tudo o que falei neste texto desde que me entendo por gente. Esses pensamentos sempre me foram muito claros até quando criança; por isso me esforcei para que eu fosse uma companhia agradável a mim mesma e o pensamento de ficar sozinha em alguns momentos não me assustasse. Isso tudo já me ajudou a passar por momentos terríveis. No entanto, como qualquer ser humano normal, passo por momentos de tristeza em que a solidão me incomoda e minha forma de lidar com essa situação muitas vezes envolve escrever textos depressivos que não passam essas ideias de fortalecimento. Afinal uma coisa é reconhecer que por mais que tenhamos companhia estamos sempre sozinhos de alguma forma e outra é ter a sensação de que se vai ficar literalmente sozinha para o resto da vida. E de vez em quando tenho essa angustiante sensação de que nunca terei alguém que me ame como meus pais se amam e que fique comigo até a velhice. Apesar de saber que me viro muito bem sozinha e que independente do que aconteça farei de tudo para ser feliz mesmo com todos os pesares do mundo, gostaria muito de um dia ter essa pessoa ao meu lado. Quando esse meu medo fica mais forte, preciso achar uma válvula de escape para esse sentimento de forma que meus princípios continuem mais fortes do que as minhas emoções.


Suposto Fim

Até que a morte me separe
Separe corpo de alma
Concreto de abstrato
Até que eu me separe de mim mesma
Deixando o vento levar,
Meu lado que não se pode ver
E deixando ser decomposto,
O meu lado que é apenas matéria orgânica.
Chegou então esse momento de separação,
Mas não estou morta!
Por fora tudo diz que minha vida se acabou:
Não possuo batimentos cardíacos
Ou quaisquer outros sinais vitais.
Estou imóvel, de olhos fechados, fria.
Porém apesar de tudo isso, eu sei,
Eu sinto por dentro que ainda estou viva
Tento gritar, avisar que ainda estou aqui,
Mas nenhum músculo se mexe,
Nenhuma mísera vibração sonora sai pela minha boca.
Por fora sou serena, um corpo na mais profunda paz.
Por dentro estou rouca de tanto berrar, bradar,
Clamar por liberdade!
Para que não esmaguem o pouco de vitalidade,
Que eu tenho certeza, ainda me resta.
Mas é em vão.
Posso sentir as mãos que carregam meu corpo.
Posso perceber as expressões de alívio que me cercam.
Até que todos param.
Chegaram finalmente ao seu local de destino.
Só resta uma coisa a fazer, e o fazem.
Os segundos então passam devagar
Como se os momentos que desperdicei pela minha vida
Voltassem para que haja uma última coisa
Que eu possa fazer para me salvar.
Não a faço
E mau uso esses momentos novamente.
É o fim.
As chamas lambem meu corpo,
Beijam minha pele
Num ato que arranca pedaços, sangue, carne, vida,
De mim.
Queimo agora por dentro e por fora.
Pela primeira vez em sintonia.
Num fogo que dura para sempre,
Provando que apesar das aparências,
Não há um fim preciso da vida.

Por: Érica Pierre Costa

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Desvanecer


Sempre me dei muito bem com a solidão. Não há quem me conheça melhor do que eu mesma; e ainda assim quando me vejo sozinha e me pego conversando comigo, acabo por fazer algumas descobertas interessantes sobre minha própria personalidade e, fazendo reflexões profundas de momentos passados, vejo onde errei na minha vida. Além disso, minha imaginação sempre foi extremamente fértil; então monto mil cenários na minha cabeça quando me falta companhia. Assim sempre me distraí muito bem. No entanto, por mais que eu sempre diga que me basto, quanto mais tempo fico só mais sinto falta de alguma coisa. Não é cada vez uma coisa diferente, não, é sempre a mesma coisa. Nunca a havia encontrado, até aquele dia; naquele domingo quente de fevereiro, naquela cidade imensa, debaixo daquele sol ardente, entre as árvores daquele parque estranho. Olhei em teus grandes olhos e eu, que por tanto tempo tive apenas a minha companhia, encontrei pela primeira vez aquilo que sempre me faltou e nunca soube nomear. Consegues compreender a minha tristeza ao descobrir que não encontraste a mesma coisa em mim? Entendes por que me entristeci tanto desde aquele dia? Aquela foi a última vez que soube o que era sorrir da forma mais completa. Um sorriso de fato sincero, pois não me lembrava mais do mundo; não sabia que existiam outras pessoas. O egoísmo da minha felicidade isolou-nos de tudo e assim soube que contigo sim teria tudo o que eu precisava. Como posso desistir? Depois de passar tanto tempo sentindo falta daquilo que encontrei contigo, como deixar para lá? Quão cruel é poder ter apenas um dia com aquilo que passei toda uma vida procurando. Agora que sei o nome do que pertence a esse vazio que sinto, a dor de não tê-lo e a falta que fazes é ainda maior. Minha mente, que tanto admira a tua, sente falta de como a estimulas. Meu corpo inteiro pede por você. Agora que minha pele conhece o calor do teu toque e meus lábios sabem o gosto dos teus, nenhum outro parece se encaixar. Em meu seio ainda sinto a firmeza da tua mão e meus olhos ainda sorvem a intensidade dos teus. Quão irônica é essa chuva maldita que não para de cair. Ela que somente me lembra que nunca mais sentirei o mesmo calor daquele dia. Nunca antes havia ansiado pelo sol a arder em minha pele. Nunca antes havia sorrido tanto em um dia tão quente. Cada barulho de cada pingo d’água apenas me impede de esquecer que nunca mais terei aquela mesma felicidade. Que nunca mais o verei.


Desvanecer

Cruel é dar esperanças
a quem não deveria as ter.
Cruel é selar um pacto
e não conseguir manter.

Selaste-o quando os nossos
olhares se encontraram.
Quando os nossos lábios se juntaram
e perdemos, juntos, a noção.

De que havia um mundo lá fora
sem lugar para nós dois.

Cruel é me dar
o que tanto desejei,
porém envolto
em breve bruma de ilusão.

Cruel é me fazer crer
que a mim pertencia
algo que nunca sequer existira
e nem viria a existir.

Cruel é dizer “vem”,
mesmo sem nada pronunciar,
àquela acostumada a persistir.
E então desaparecer
sem ao menos um adeus.

Cruel é ser frio
sem nada falar.
E machucar sem cortar.

Cruel é nem ao menos o extrair
com um corte limpo
que rapidamente se cure.

Cruel é abrir essa ferida repugnante
a unhas e dentes;
infeccionando-a
com esse liquido peçonhento
feito do teu silêncio,
impedindo-a de cicatrizar.

Cruel é encher meu seio
com esse ardor
que há muito quis;
para então deixar-me presa
entre essas paredes gélidas.

Cruel é me fazer sentir
para em seguida marcar tua indiferença
tão profundamente em mim.

Cruel é nunca escolher.

Érica Pierre Costa